Memorial Gilnei Quintana Marques,
jornalista, nosso grande amigo e egon!
Eu e o Gilnei

Você viveu algum momento especial com o Gilnei? Ele foi marcante na sua vida? Mande sua recordação para nós.

o primeiro
Enviado por mimi aragón em 02/07/2007

o gilnei foi sempre o primeiro alguma coisa na minha vida e antes que vire sacanagem, eu explico. ele foi o primeiro cara que me mostrou o quanto era bacana a linguagem radiofônica. foi com ele a primeira das pouquíssimas brigas que tive até hoje no trabalho - com direito a porta fechada depois do expediente, vozes alteradas, olhos esbugalhados, rostos vermelhos, aortas salientes e dedos nos narizes. tudo assim, no plural, como convinha a um geminiano irascível e uma virginiana por demais contida.

foi junto com ele que devorei minha primeira vitela com batatas, lá no copacana, fartamente afogada em goles de valpolicella - e isso, mais tarde, acabou virando um ritual pra gente. foi o primeiro amigo a ouvir coisas que eu só contaria pra uma amiga. foi dele o telefonema empolgado que recebi há uns 12, 13 anos - "biiiiiiiiiiiii, tu já ouviu falar num troço fantástico chamado world wide web?".

foi o gilnei o meu primeiro contato no icq. e foi pra ele o primeiro e-mail que mandei na vida. foi com ele que fiz minhas primeiras compras pela rede - numa loja chamada cdnow, que agora atende por amazon. os meus eram dos pixies e do sonic youth e os dele, do velvet e do depeche mode. há dez anos, o gilnei foi o primeiro cara que me falou que afrociberdelia, do chico science, ia ser um clássico num dia não muito distante. na mosca!

aliás, foram elas, as moscas, que renderam a nossa história mais bizarra, que a gente lembrava com espanto todas as vezes que alguém puxava o assunto "causos horripilantes que ninguém explica". num happy hour lá no apê onde ele morou na silva só, dali a pouco olhamos pra janela da sala e ela estava preta, pretinha, pretona de insetos estranhos, que passariam por inofensivas drosófilas, não fosse dois detalhes aterradores: a gente batia nas danadas com um jornal, e nenhuma voava, embora, pelo movimento, a gente visse que elas estavam vivinhas. pior, elas sangravam... é, isso mesmo: san-gra-vam, como se fossem mosquitos. se foi alucinação (e bem que podia ser, viu?...), foi a primeira viagem coletiva que eu testemunhei na vida.

foi com ele, e mais um monte de gente querida, que eu passei meu primeiro reveillon na pinheira. foi com ele, e mais um monte de gente querida, que eu vi o calendário virar dos 99 pros 00, no jardim da casinha-com-cara-de-garopaba onde morei no ipanema, na zona sul da sorridente capital. foi ele o primeiro amigo a assar um churras debaixo do alpendre dessa casinha.

e foi uma verdadeira epopéia: chovia furiosamente, inclusive SOBRE a churrasqueira. o gilnei, santanense brioso, manejou a espetarama brilhantemente com água pelos tornozelos. minha única obrigação era puxar a água com o rodo de vez em quando e manter sempre cheio o copázio de ceva do assador. a carne, ora, ficou divina, é claro.

foi o gilnei o primeiro amigo a dizer que determinada pessoa do meu ambiente de trabalho, que se mostrava muy boazinha, carregava uma nuvem escura, feia e do mal. e essa tal logo depois colocou mesmo as manguinhas de fora. ele foi o primeiro a insistir pra eu escrever pro site dele, o baguete, lááá no início, e eu nunca quis porque não me achava à altura do talento que ele tinha.

no mesmo dia em que eu apaguei meu último cigarro, o gilnei, heavy user dos pitos, recebeu o sombrio diagnóstico de câncer na rinofaringe. desde então, não houve um só dia em que eu não lamentasse e sofresse com a provação medonha por que ele - valente, otimista e altivamente - passava, sempre com a admirável fortaleza da taís por perto, mais a família, unidíssima, e, ao largo, pra não trazer mais desconforto, um séquito de amigos fiéis e apaixonados, como eu.

eram cirurgias, quimios, radios, efeitos colaterais, exaustão, privações de todo tipo, depressão, incapacidades mis, inquietações, afastamentos, ausências. mesmo com tudo isso, o tal câncer não recuou. virou metástase, migrou pros ossos, trouxe ainda mais dor. aí, logo naquela quarta-feira, um dia depois de eu voltar pra casa, feliz com os diazinhos de folga em são paulo, o gilnei se transformou no primeiro amigo que eu precisei velar.

ele foi embora e levou junto um pedação macio e cálido e divertido e frenético e intenso e bêbado da minha história. por aqui, ficou só um rombo irrecuperável e uma saudade sem tamanho. mais as lembranças bacanas e gargalhantes e a certeza de que, ainda que o tempo tenha sido mínimo, valeu cada segundo à volta do marques véio (um dia, em vez do habitual "gilnei", variei com um "marques" e ele me confessou, todo pimpão, que sempre sonhou em ser chamado pelo sobrenome paterno), meu primeiro, de valor inestimável, melhor amigo.

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