Enviado por João Luiz de Mello em 24/09/2007
Pois a nossa amizade sempre foi extremada. Ou estava muito boa ou quebrávamos o pau e tínhamos vontade de matar um ao outro. Diga-se no entanto que isto em nenhum momento atrapalhou nossos jantares e planos (e concretizações) de férias juntos, incluindo uma impagável saída de bote a motor de 4 Ilhas até o Retiro dos Padres, que já é assunto para outra vez. Compartilhávamos, além da quase idolatria ao cordeirinho mamão assado pelo Geyer, ao próprio Geyer e entre outras coisas, à fotografia. Nos tempos de dinheiro contado, comprei uma máquina fotográfica Zenith russa, em que aprendi a lidar com diafragmas, tempos de exposição, troca de lente, escolha de filme... Quando o Gilnei começou a cadeira de fotografia na faculdade, acabou comprando minha valente (e pesada como uma bigorna) Zenith X-12. Acabei ganhando (e depois comprando uma outra) digital, ele também (para uso no Baguete, daquelas de colocar disquete de computador para gravar a imagem). Como eu ainda estava insatisfeito com minha W5 Sony, pois queria melhor resolução para detalhar alterações em pele de pacientes, comprei uma W7. O Gilnei acabou comprando minha W5, que excedia em muito a necessidade de obter fotos para colocar na Internet. Não sei o que aconteceu nestas compras e vendas, mas um dia ele me cobrou a entrega do cabo do carregador das pilhas que acompanhava a máquina. Eu dizia que tinha ido junto com o carregador, ele dizia que não encontrava e fomos neste crescendo de "já te dei" - "não deu porque eu não acho", azedando nossos encontros. Para os que não conhecem o tal cabo, é um "rabicho" ridículo, que provavelmente se compra "uma dúzia por 10 reais" em qualquer lojinha de artigos elétricos. Durante um almoço de dia das mães na nossa casa - o primeiro feito depois da morte da Noely, carregado de emoção e silêncios, não tenho certeza do que perguntei ou disse, Gilnei reivindicou novamente o cabo. Subi até onde estava o carregador da minha máquina, tirei o cabo e entreguei para ele, evidentemente furioso. Bate boca, saída do Gilnei (e volta para o restante do almoço por interferência do Geyer) e ficamos todo o resto do domingo emburrados um com o outro. Fui ao pátio da casa pegar carqueja para o infalível chá digestivo pós almoço e encontro o cabo que eu tinha entregue há pouco ao Gilnei e objeto de toda a briga, jogado, claro que intencionalmente, na grama e com uma das pontas totalmente roídas pelo Tombinha, nosso valente poodle-lata... Salomonicamente nosso guaipeca resolveu a questão de com quem ficaria o cabo... |